Encontro a Ginger na porta do cinema. Acho que estou condicionado a sorrir toda vez que a vejo. A minha boca reage instantaneamente. Ela está usando uma calça jeans e um top verse. Simples. E linda. Algo me diz que ela tem muito de Kubikova e vice-versa. A vida imita a arte, ou eu, simplesmente, copio. A garota dos meus sonhos existe e está vindo ao meu encontro. Se eu fosse cineasta, colocaria a câmera bem onde estou. Assim, eu a veria, em câmera subjetiva, descer a rua apressada entre passos alternados, a sua bolsa balançando, sua mão se agitando, harmoniosamente, e o exato momento em que leva a mão para jogar o cabelo por trás da orelha. Em seguida, ela me enxergaria, sorriria e apertaria ainda mais o passo. Só cortaria quando ela entrasse em close, exatos dois segundos antes de me beijar.
— Demorei?
— Posso pedir uma coisa?
— O quê?
— Você poderia ir até a esquina e descer a rua de novo?
— Por quê?
— Porque eu quero registrar isso.
— Onde? Como?
— Na minha memória.
Ela sorri. É um festival de sorrisos.
— Ok. Vou lá então.
— Não se esqueça que você está descendo pela primeira vez a rua – eu quase grito.
— Entendi – ela responde de costas.
Gui chega até a esquina. faz pose e desce a rua como se estivesse atuando. Eu ligo a minha câmera imaginária. Registro todos os movimentos. Penso em como vou me lembrar disso até o fim dos meus dias. Pensando em como a lembrança ainda é melhor que a máquina fotográfica. Agora, cinematograficamente, eu gravo frame por frame na minha memória, expondo a luz e meus sentimentos, e projeto na minha retina as imagens que voltarei sempre a enxergar toda vez que sentir um dia nublado entre a ausência e o encontro da pessoa que, possivelmente, vai causar mais falta e mais completude, ao mesmo tempo, na minha vida.
Livro 'Go' de Nick Farewell
quinta-feira, 7 de abril de 2011
domingo, 27 de março de 2011
''(...) Não sumirei por medo de desaparecer, não vou ferir por medo de machucar, não serei chata por medo de você me achar legal, não vou desistir antes de começar, não vou evitar minha excentricidade, não vou me anular por sentir demais e logo depois não sentir nada, não vou me esconder em personagens, não vou contar minha vida inteira em busca de ter realmente uma vida.
Dessa vez não vou querer tudo de uma vez, porque sempre acabo ficando sem nada no final. ''
Dessa vez não vou querer tudo de uma vez, porque sempre acabo ficando sem nada no final. ''
terça-feira, 22 de março de 2011
Tenho me confundido na tentativa de te decifrar, todos os dias. Mas confuso, perdido, sozinho, minha única certeza é que de cada vez aumenta ainda mais minha necessidade de ti. Torna-se desesperada, urgente. Eu já não sei o que faço. Não sinto nenhuma outra alegria além de ti.
(..) Quando foi que me desequilibrei?
sexta-feira, 11 de março de 2011
segunda-feira, 7 de março de 2011
domingo, 5 de dezembro de 2010
''Carta a mim mesmo daqui a 50 anos''
'' Meu querido Chico,
Espero, é claro, que esta carta te encontre bem. Não me iludo: quando digo “bem”, tento pensar de acordo com seus próprios critérios. Alguma vitalidade. Poucas dores, uma ou outra limitação física, nada que comprometa sua independência ou capacidade de tomar decisões. Se não for esperar demais, também torço para que o fígado ainda funcione, o suficiente para uma bebedeira ocasional.
Como andará o seu humor? É fácil rir de si mesmo aos trinta anos — e agora? Tanto tempo depois, não me surpreenderia se as frustrações tivessem feito algum estrago em seu espírito. Os devaneios, por menores que sejam, acabam esmagados pelo peso dos fatos. As intenções elevadas vão dando lugar a sentimentos mais, digamos, pedestres: a mesquinharia, o orgulho, a ambição vazia. O cinismo. A amargura.
Foi impossível evitar. As coisas foram acontecendo, não havia como se proteger. Há quem tenha te decepcionado; há, ao contrário, aqueles a quem você ofendeu, que não conseguiu evitar magoar — e a culpa por esses gestos ainda deve doer em você.
E há os mortos.
Sim, os mortos. Gente que você amou e que te fez feliz. Gente que ajudava a te definir, que era a janela através da qual você enxergava algum sentido no mundo — e que agora, justamente quando era mais necessário, não está mais por aqui. Você já sabia que seria assim, mas isso não ajudou em muita coisa. Posso imaginar sua perplexidade. Seu assombro. Diante desse vazio, não deve restar muito a fazer senão sentar-se num canto e, em silêncio, acostumar-se à solidão.
A pergunta soa quase absurda, mas eu me sinto obrigado a fazê-la: diante de tudo o que aconteceu, você ainda será capaz de se apaixonar? A proximidade do fim carrega um quê de egoísmo: é uma luta que se trava a sós. Não seria o amor, do seu ponto de vista, um capricho típico de quem, por estar distante da morte, ainda vive a ilusão da eternidade?
É bem provável. Mas, pensando melhor, também pode ser que aconteça exatamente o contrário. Que a iminência do fim, em vez de paralisar o espírito, recheie as coisas de uma intensidade inesperada. De uma hora para outra, você se vê lúcido e forte. Pela primeira vez, sente-se capaz de encarar a vida de frente. Tudo é claro, tudo é igualmente simples e fundamental. As coisas são o que são, e é desse ponto privilegiado que você se permite entregar-se sem medo às paixões mais ferozes.
Será mesmo? Não sei. Estou um pouco confuso. Nem tenho muita certeza, na verdade, do motivo de estar escrevendo tudo isso. No fundo, acho que tenho apenas a expectativa de que essas linhas te alcancem — e que você as leia com uma espécie de compaixão. Quanta solenidade, meu Deus. Que desperdício de palavras. O que espero, no fim das contas, é que você encontre esta carta e, com um sorriso no rosto, grite para o cômodo vizinho: vem cá, meu bem. Vem ver isso que eu achei na gaveta. Dá pra acreditar numa coisa dessas?
Um abraço,
Chico ''
Texto de Chico Mattoso
domingo, 24 de outubro de 2010
Escolhas:
- Devíamos ter mais opções de escolha.
- Como assim?
- Escolher de quem gostar, por exemplo...
- Isso não dá.
- E se desse, o que você faria?
- Ainda assim escolheria você.
CFA.
- Como assim?
- Escolher de quem gostar, por exemplo...
- Isso não dá.
- E se desse, o que você faria?
- Ainda assim escolheria você.
CFA.
segunda-feira, 4 de outubro de 2010
Constatação.
'' Você saiu e ainda não fez o favor de bater a porta com força, como quem diz: não vou voltar nunca mais.
Por que não me deleta da tua agenda?
Esse papel de amigo que ligou pra saber como tudo está, não lhe cai nada bem. Não digo que você mente, só que não lhe cai bem.
Aliás, me cai pior ainda, depois: “tchau, foi bom falar com você”.
O que é?
Te incomoda que eu te esqueça?
Que eu não te procure nunca mais?
Que nos tornemos dois desconhecidos?
Que um dia qualquer um dos meus ouvidos estranhem a tua voz, e que a boca, involuntariamente ao atendê-lo, pergunte:
- Quem fala?
Que eu te encontre por essas esquinas, e os meus olhos não reconheçam os teus?
- Se é que um dia eles se enxergaram…digo, de verdade.
Foram apenas apresentados por nós, e por nós mesmos também afastados. Mas os meus se foram loucos… para olharem pra trás, foram querendo ficar.
- Faça-me um favor…?
Não comunique-se com nenhum dos meus sentidos. Nenhum!
Pois depois que falam contigo, correm direto ao coração pra contar-de-ti.
É lá é perigoso. Para mim.
Odeio o teu papo-furado e as tuas perguntas repetidas.
Odeio também ter que me repetir nas respostas, e às vezes, por descuido nelas me entregar mais-uma-vez.
Odeio ainda tremer, mesmo nos dias quentes, com essa tua voz!
Odeio querer achar segundas intenções nas tuas frases, e odeio mais ainda quando as encontro.
Odeio ter que perder meu tempo depois, tentando juntar o que me disse. Sem razão.
Odeio, odeio! Me sentir refém do que sinto…
Você deve saber o reboliço que causa aqui, e faz de propósito.
E que raiva sinto de mim por te escutar! Por querer te escutar!
Entenda, que quero você bem, mas não quero sabê-lo!
AAAAHH se eu pudesse me desligar, te desligar de mim! Como no telefone...
Num clic. Só com a cara e a coragem esquecer.
Tudo isso desassosega-me o juízo.
Começo a lembrar, enxergar, escutar, sentir demais.
Odeio odiar todas essas coisas, e mais ainda não te odiar, te querer. Não te possuir.
Odeio essa contradição, que eu entendo.
Odeio, sobretudo, quando pulas fora de mim, e te vejo concreto no papel.
Odeio quando você se torna a minha inspiração pra escrever!
É. Gosto de você.
Ainda.
Constatação. ''
Texto perfeito do Eduardo Porter de Souza.
Por que não me deleta da tua agenda?
Esse papel de amigo que ligou pra saber como tudo está, não lhe cai nada bem. Não digo que você mente, só que não lhe cai bem.
Aliás, me cai pior ainda, depois: “tchau, foi bom falar com você”.
O que é?
Te incomoda que eu te esqueça?
Que eu não te procure nunca mais?
Que nos tornemos dois desconhecidos?
Que um dia qualquer um dos meus ouvidos estranhem a tua voz, e que a boca, involuntariamente ao atendê-lo, pergunte:
- Quem fala?
Que eu te encontre por essas esquinas, e os meus olhos não reconheçam os teus?
- Se é que um dia eles se enxergaram…digo, de verdade.
Foram apenas apresentados por nós, e por nós mesmos também afastados. Mas os meus se foram loucos… para olharem pra trás, foram querendo ficar.
- Faça-me um favor…?
Não comunique-se com nenhum dos meus sentidos. Nenhum!
Pois depois que falam contigo, correm direto ao coração pra contar-de-ti.
É lá é perigoso. Para mim.
Odeio o teu papo-furado e as tuas perguntas repetidas.
Odeio também ter que me repetir nas respostas, e às vezes, por descuido nelas me entregar mais-uma-vez.
Odeio ainda tremer, mesmo nos dias quentes, com essa tua voz!
Odeio querer achar segundas intenções nas tuas frases, e odeio mais ainda quando as encontro.
Odeio ter que perder meu tempo depois, tentando juntar o que me disse. Sem razão.
Odeio, odeio! Me sentir refém do que sinto…
Você deve saber o reboliço que causa aqui, e faz de propósito.
E que raiva sinto de mim por te escutar! Por querer te escutar!
Entenda, que quero você bem, mas não quero sabê-lo!
AAAAHH se eu pudesse me desligar, te desligar de mim! Como no telefone...
Num clic. Só com a cara e a coragem esquecer.
Tudo isso desassosega-me o juízo.
Começo a lembrar, enxergar, escutar, sentir demais.
Odeio odiar todas essas coisas, e mais ainda não te odiar, te querer. Não te possuir.
Odeio essa contradição, que eu entendo.
Odeio, sobretudo, quando pulas fora de mim, e te vejo concreto no papel.
Odeio quando você se torna a minha inspiração pra escrever!
É. Gosto de você.
Ainda.
Constatação. ''
Texto perfeito do Eduardo Porter de Souza.
sábado, 5 de junho de 2010
500 days of summer
- Você só faz o que quer, não é?
- ...
- Não queria ser namorada de alguém e agora é esposa de alguém.
- Me surpreendeu também
- Acho que nunca vou entender.
Quer dizer, não faz sentido!
- Só aconteceu
- É, mas isso que eu não entendo. O que aconteceu?
- Eu só.. Só acordei um dia e soube.
- Soube o que?
- O que eu nunca tive certeza com você.
cena do filme '' 500 dias com ela''
- ...
- Não queria ser namorada de alguém e agora é esposa de alguém.
- Me surpreendeu também
- Acho que nunca vou entender.
Quer dizer, não faz sentido!
- Só aconteceu
- É, mas isso que eu não entendo. O que aconteceu?
- Eu só.. Só acordei um dia e soube.
- Soube o que?
- O que eu nunca tive certeza com você.
segunda-feira, 17 de maio de 2010
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